Tecnologia

Brasil cria guia para orientar o uso responsável da inteligência artificial em pesquisas científicas

Dois pesquisadores de jaleco analisam um braço robótico em um laboratório.
Material da Inaep propõe critérios para que comitês de ética avaliem riscos relacionados a dados pessoais, vieses e supervisão humana em estudos com inteligência artificial

O Brasil passou a contar com uma referência nacional para orientar a análise ética do uso de inteligência artificial em pesquisas científicas. A Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), vinculada ao Ministério da Saúde, aprovou e disponibilizou, em 25 de setembro de 2026, um guia voltado a estudos que utilizam sistemas de inteligência artificial, especialmente aqueles que envolvem seres humanos.

O material busca estabelecer parâmetros comuns para os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs), responsáveis por avaliar a adequação ética de projetos científicos. A proposta considera que a adoção de ferramentas de IA pode ampliar a capacidade de análise e processamento de informações, mas também introduzir riscos relacionados à privacidade, à qualidade dos dados e à tomada de decisões automatizada.

Segundo o Ministério da Saúde, o guia também inclui a Matriz de Avaliação de Risco em Inteligência Artificial em Pesquisa com Seres Humanos. A ferramenta recebeu o nome de Mariah e foi desenvolvida para auxiliar os comitês na identificação e na classificação dos riscos presentes em cada estudo.

Quais pontos o guia pretende organizar

Entre os aspectos considerados estão o uso de dados pessoais, a possibilidade de vieses algorítmicos, os riscos de discriminação e a representatividade das bases utilizadas no desenvolvimento ou na aplicação dos sistemas. Esses elementos podem influenciar os resultados de uma pesquisa e afetar de maneira desigual diferentes grupos de participantes.

A orientação também destaca a importância da supervisão humana e da responsabilização. Na prática, a utilização de uma ferramenta automatizada não elimina a necessidade de que pesquisadores e instituições compreendam como o sistema é empregado, quais limitações apresenta e quem responde pelas decisões tomadas durante o estudo.

Esse conjunto de critérios amplia a discussão sobre inteligência artificial em pesquisas científicas. A análise ética deixa de se concentrar apenas na finalidade declarada do projeto e passa a considerar também a origem e a qualidade dos dados, os possíveis impactos sobre os participantes e a transparência dos procedimentos adotados.

Matriz Mariah deve apoiar avaliação dos comitês

A Mariah foi apresentada como um instrumento de apoio aos CEPs. Sua função é contribuir para que os comitês reconheçam e classifiquem riscos associados ao uso de inteligência artificial em pesquisas com seres humanos, oferecendo uma estrutura comum para a análise dos projetos.

A existência de uma matriz não significa, porém, que todos os estudos serão avaliados de forma automática ou idêntica. A proposta mantém a autonomia dos comitês para examinar as características de cada pesquisa, considerando o público envolvido, o tipo de dado utilizado, o objetivo do sistema e as possíveis consequências de seus resultados.

Com isso, o guia procura oferecer maior previsibilidade a pesquisadores e instituições sem substituir a avaliação contextual feita pelos órgãos responsáveis. Universidades, hospitais e centros de pesquisa poderão encontrar no material uma referência para organizar seus projetos e antecipar questões que deverão ser examinadas durante a tramitação ética.

Consulta pública e período de testes

De acordo com as informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, o guia será submetido à consulta da sociedade. O material também poderá ser testado pelos Comitês de Ética em Pesquisa durante um período inicial de seis meses, etapa que deve contribuir para a identificação de ajustes e para o aperfeiçoamento da proposta.

Esse processo permite que a orientação seja avaliada a partir da experiência prática dos comitês e das contribuições de pesquisadores, instituições e demais interessados. Como o uso de inteligência artificial ainda passa por mudanças técnicas e metodológicas, a revisão baseada em testes pode ajudar a manter os critérios alinhados aos desafios encontrados nos estudos.

A consulta também coloca a discussão sobre ética e tecnologia em um espaço mais amplo. Ao envolver a sociedade, a iniciativa reconhece que pesquisas com inteligência artificial podem produzir efeitos que ultrapassam os limites dos laboratórios e alcançam comunidades, pacientes e grupos potencialmente vulneráveis.

Por que a iniciativa é relevante para a ciência brasileira

A expansão da inteligência artificial em áreas como saúde, biotecnologia e análise de dados aumenta a necessidade de regras claras para proteger participantes e preservar a confiança na produção científica. Sistemas capazes de identificar padrões ou processar grandes volumes de informação podem oferecer novas possibilidades, mas seus resultados dependem das bases utilizadas, dos critérios definidos e do acompanhamento humano.

O guia da Inaep representa, nesse contexto, uma tentativa de organizar responsabilidades antes que a tecnologia seja incorporada aos estudos. A iniciativa não trata a inovação apenas como uma questão de eficiência, mas também como um processo que exige transparência, proteção de dados, representatividade e mecanismos para lidar com eventuais danos.

Ao estabelecer uma referência nacional e propor uma ferramenta de avaliação de riscos, o Brasil cria uma base comum para o debate sobre o uso responsável da inteligência artificial em pesquisas científicas. Os próximos passos dependerão da consulta pública, da experiência dos CEPs durante o período de testes e da evolução das próprias aplicações tecnológicas.