De acordo com o desembargador Alexandre Victor de Carvalho, o princípio da insignificância, amplamente discutido no campo do direito penal, refere-se à ideia de que certos atos, embora tecnicamente configuradores de crime, não devem ser punidos devido à sua irrelevância social e jurídica. Um exemplo relevante dessa aplicação é o caso julgado pelo furto de uma peça de carne avaliada em trinta e cinco reais.
Neste artigo, vamos explorar como esse princípio foi tratado no caso concreto, as razões do Desembargador e as implicações de sua decisão.
O contexto do caso e a defesa do acusado
O acusado foi inicialmente processado pelo Ministério Público sob a acusação de furto simples, previsto no artigo 155 do Código Penal. Segundo as alegações, ele teria subtraído uma peça de carne de um estabelecimento comercial, avaliada em apenas trinta e cinco reais. O Desembargador Alexandre Victor de Carvalho, em seu voto, ponderou que, embora o ato tivesse configurado uma infração, o valor do bem furtado era tão irrelevante que não justificava uma condenação penal.

No julgamento, a defesa alegou a aplicação do princípio da insignificância, defendendo que o pequeno valor da res furtiva e a ausência de prejuízo real para a vítima seriam razões suficientes para afastar a tipicidade penal. O Desembargador seguiu essa linha de pensamento, reconhecendo que a aplicação do princípio da insignificância excluiria a punição do réu, uma vez que o desvalor da ação era irrisório. A sentença foi inicialmente favorável ao réu, com a absolvição em relação ao crime de ameaça.
A divergência do relator e a aplicação do privilégio penal
O julgamento seguiu um rumo divergente quando a Desembargadora, relatora para o acórdão, apresentou uma visão diferente. Ela discordou do Desembargador Alexandre Victor de Carvalho, no que tange à aplicação do princípio da insignificância. Para ela, o fato de o objeto furtado ser de pequeno valor não era suficiente para excluir a tipicidade do crime, especialmente considerando o contexto social e a necessidade de proteção ao patrimônio comercial.
Apesar dessa discordância, a Desembargadora reconheceu que o acusado, sendo primário e com um delito de pequena monta, poderia ser beneficiado pela aplicação do privilégio penal, uma atenuante que reduz a pena em função das circunstâncias do caso. Nesse sentido, o julgamento refletiu uma análise cuidadosa das condições pessoais do réu e da natureza do crime. O Desembargador, embora vencido, seguiu sua convicção de que o sistema penal deveria ser reservado para crimes com efetiva gravidade.
Implicações da decisão e reflexões sobre o sistema penal
A decisão do caso coloca em debate a eficácia e os limites do sistema penal brasileiro. O Desembargador Alexandre Victor de Carvalho, ao aplicar o princípio da insignificância, mostrou uma postura mais cautelosa e pragmática, defendendo que, em situações de baixo impacto social e jurídico, o direito penal não deveria intervir com severidade. Essa visão se alinha a uma tendência contemporânea no direito penal, que busca evitar a punição desnecessária.
No entanto, o julgamento também ressalta as dificuldades enfrentadas pelo sistema de justiça ao lidar com crimes de menor gravidade. A aplicação do princípio da insignificância, como sugerido pelo Desembargador, poderia contribuir para uma abordagem mais racional da criminalidade, evitando a superlotação do sistema prisional e a estigmatização de indivíduos por infrações menores.
Em suma, o julgamento do caso, relatado pelo Desembargador Alexandre Victor de Carvalho, destaca a complexidade do direito penal e as diferentes abordagens possíveis para tratar crimes de menor relevância. A aplicação do princípio da insignificância, defendida pelo desembargador, oferece uma reflexão importante sobre a necessidade de balancear a punição com a real gravidade do ato praticado.
Autor: Vlasov Gogh
Fonte: Assessoria de Comunicação da Saftec Digital