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Remediar um lixão depois de encerrado sai muito mais caro do que nunca tê-lo aberto

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Marcello José Abbud, como empresário e especialista em soluções ambientais, pontua que encerrar um lixão sem remediá-lo é como tampar um vazamento de óleo com um pedaço de pano. A contaminação continua avançando por baixo, invisível, até que o custo de reversão supere em muitas vezes o que teria custado uma gestão correta desde o início. 

Esse raciocínio resume bem o dilema enfrentado hoje por centenas de municípios brasileiros que encerraram suas áreas de disposição irregular sem executar os procedimentos técnicos de remediação exigidos pela legislação. Para entender o que está por trás desses números e por que o custo ambiental e financeiro da remediação cresce quanto mais o problema é adiado, continue lendo.

O que envolve, na prática, a remediação de um lixão encerrado?

Remediação não significa apenas cobrir a área com terra e plantar grama. Como destaca Marcello José Abbud, o processo técnico de recuperação de uma área degradada por disposição irregular de resíduos envolve etapas encadeadas e de longa duração, que podem se estender por décadas, dependendo do volume de resíduos depositado, do tempo de operação do lixão e das características geológicas e hidrogeológicas do terreno.

As etapas principais incluem a caracterização ambiental da área, com investigação do solo e das águas subterrâneas, a elaboração de um projeto de remediação aprovado pelo órgão ambiental competente, o tratamento ou contenção das plumas de contaminação identificadas, a instalação de sistemas de drenagem de chorume e gases, o monitoramento contínuo por anos após a intervenção e, em muitos casos, a restrição permanente de uso da área para determinadas atividades.

Por que o custo ambiental tende a ser subestimado pelos gestores públicos?

O custo ambiental de um lixão não remediado raramente aparece nas planilhas orçamentárias municipais, e esse é exatamente o problema. Segundo Marcello José Abbud, a invisibilidade contábil da degradação ambiental leva gestores a postergar decisões que, do ponto de vista técnico, deveriam ser prioritárias. O solo contaminado não emite nota fiscal. O lençol freático comprometido não gera débito no caixa municipal. Mas os impactos existem e se acumulam.

Entre os custos ambientais frequentemente ignorados estão a perda de produtividade agrícola nas áreas circundantes, a inviabilização de poços de abastecimento comunitário, os danos à biodiversidade local, a emissão descontrolada de metano, um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono, e a desvalorização imobiliária de toda a região afetada. Quando esses fatores são monetizados em estudos técnicos, o custo ambiental de um lixão não remediado supera, com frequência, o custo de sua remediação.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Existe alternativa economicamente viável para municípios com poucos recursos?

A resposta é sim, mas ela exige planejamento e articulação institucional. De acordo com o diretor da Ecodust Ambiental, Marcello José Abbud, os municípios que não têm capacidade orçamentária para arcar individualmente com os custos de remediação têm à disposição instrumentos como consórcios intermunicipais, linhas de financiamento do BNDES, recursos do Fundo Nacional de Meio Ambiente e editais de programas estaduais de regularização de passivos ambientais. O acesso a esses mecanismos, no entanto, exige que o município tenha ao menos iniciado o processo técnico de caracterização da área.

Projetos de biogás, que capturam o metano gerado pela decomposição dos resíduos e o convertem em energia elétrica, têm se mostrado uma forma de transformar parte do passivo ambiental em ativo econômico. Em alguns casos, a receita gerada pela venda de energia ou créditos de carbono contribui para financiar a própria remediação ao longo do tempo.

O verdadeiro custo de não decidir

Marcello José Abbud conclui que adiar a remediação de um lixão encerrado não é uma escolha neutra. É uma decisão ativa de transferir um custo crescente para gestões futuras e para as comunidades que vivem nas proximidades dessas áreas. A experiência acumulada no setor ambiental brasileiro demonstra que cada ano sem intervenção técnica agrava a extensão das plumas de contaminação, amplia a área de solo degradado e eleva exponencialmente o investimento necessário para reverter o quadro.

O encerramento correto e a remediação de lixões representam, portanto, não apenas uma obrigação legal estabelecida pela PNRS, mas uma decisão de gestão pública responsável. Municípios que enfrentam esse desafio com planejamento e suporte técnico adequado descobrem que o custo ambiental e financeiro da remediação, embora real e significativo, é sempre menor do que o custo de continuar ignorando o problema.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez